Cuidando de Quem Cuida

Atualizado: 8 de Jul de 2020


"Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador, onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: 'O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo.'
O homem se desfaz em lágrimas. E diz: 'Mas, doutor... Eu sou o Pagliacci.'"

- Diálogo apresentado no filme Watchmen (2009), com roteiro adaptado de Alan Moore.


O diálogo supracitado é posto para ilustrar, por analogia, uma situação habitual, geralmente pouco exposta, mas que se encontra em clara evidência: O adoecimento físico e/ou emocional daqueles que têm o papel social/profissional de cuidar - seja voluntaria ou profissionalmente -, ou, como no caso do grande palhaço Pagliacci, fazer sorrir.


Muitos de nós consideramos o ato de cuidar como um dom, um destino e/ou até mesmo um presente divino, pois cuidar é uma "arte" de difícil manejo, que exige uma certa medida de energia, doação e empatia.


Em alguns casos, inconscientemente, projetamos no outro o cuidado que gostaríamos que fosse realizado conosco ou com aqueles mais próximos, como com os nossos familiares, por exemplo, logo, cuidar faz bem, alivia e traz felicidade não só para quem é ajudado, mas para quem ajuda também.


Nesse sentido, observamos que, desde cedo, as pessoas que cuidam, geralmente, recebem uma "aura" de serem fortes, inabaláveis, que enfrentam obstáculos, superam desafios e fazem o possível em prol do outro - e internalizam isso de forma tão intensa que não se percebem de outra maneira.


Atualmente, estamos vivendo em um mundo ameaçador, onde, de fato, o que se anuncia é vago e incerto, aonde milhares de pessoas, como os profissionais de saúde, têm doado suas vidas, em virtude do cuidado ao próximo. E isso é algo extremamente louvável.


Pessoas que, de uma forma geral, estão cuidando daqueles que mais necessitam, sob sérias limitações e dificuldades estruturais, financeiras e sociais, assim como sob o perigo iminente de colocar sua saúde em risco.


Saúde física, pois há o risco evidente de possível contágio e complicações provenientes do vírus que se apresenta, mas também saúde emocional, no sentido de lidar diariamente e diretamente com a sobrecarga de demandas, medos, limites, frustrações, sentimentos alheios, isolamento social/afetivo, distanciamento dos entes queridos, e por aí vai.


É um esforço que merece ser reconhecido e valorizado, não apenas com agradecimentos, mas com políticas públicas efetivas de investimento em pessoal e em estrutura, para que não tenhamos que perder ainda mais vidas. Não é de hoje. Hoje, ainda mais.


É importante ressaltar que o fato de cuidar não elimina o fator de autocuidado, uma vez que todos somos passíveis de adoecimento e eventualmente necessitamos de cuidado. Muito pelo contrário, ao atendermos nossas demandas internas, podemos lidar de uma forma mais adequada com as demandas externas. 


Acontece que, quando temos dificuldades em lidar com o nosso próprio Eu e suas necessidades, inconscientemente, findamos externalizando essa dificuldade com atitudes e/ou sintomas deveras inconvenientes, como irritabilidade, heteroagressividade, insônia, choro fácil, ansiedade exacerbada, entre outros. Por isso também a relevância do autocuidado.  


O autocuidado se faz necessário nos mais variados aspectos, como físico, emocional ou social, e níveis, desde a prevenção, como na identificação e ressignificação de potenciais fatores adoecedores, à "pósvenção", quando é necessário intervir no que já é evidente, pois não há mais outra alternativa. Nesse sentido, a atenção à saúde mental/emocional em nada difere da atenção à saúde física.


Inúmeras pesquisas revelam que há um alto índice de profissionais de saúde que negligenciam o autocuidado ou, no mínimo, têm dificuldade para buscar serviços de atenção à saúde. O que esses números querem nos dizer?


Podemos listar diversas hipóteses, mas somente estes sujeitos podem nos responder com propriedade, a partir da escuta, da compreensão e do cuidado, dado que suas necessidades são pessoais, subjetivas e intransferíveis, a fim de inverter esse padrão.


Asseguro que este não é um caminho simples, porém, necessário e libertador, pois como dito por Ray Lima, grande educador popular e cenopoeta paraibano, em sua canção:


"[...] Cuidar do outro é cuidar de mim,
Cuidar de mim é cuidar do outro,
Cuidar do outro é cuidar de mim,
Cuidar de mim é cuidar do mundo."



Com afeto,



Pedro Augusto de Oliveira Costa

Psicólogo

CRP-17/3548




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