Quarentena no divã... ou divã em quarentena?


A suspensão do cotidiano tem afetado as pessoas de formas diversas e subjetivas: solidão, urgência, privação “traumática”, questões conjugais e familiares. Li um artigo onde o autor comparou a pandemia com um tsunami: como se estivéssemos observando o mar recuar imensamente e boa parte das pessoas ainda tomando sol na areia, enquanto outras já teriam assistido aos noticiários e se antecipariam na contagem de perdas. E as perdas, não somente físicas quanto emocionais, fazem com que todos nós fôssemos atravessados por uma espécie de luto. Luto pelo abraço, pelo contato físico, luto pelo trabalho, pelas quantidades de mortes advindas desse tsunami invisível, pela vida que dificilmente será vivida da mesma forma, luto pela impossibilidade de muitas vezes se ressignificar as etapas da vida. Nesse meio tempo, a busca pela saúde mental se torna essencial ou pelo menos recomendada.

"Existe como fazer psicanálise de forma on-line?”, muitos perguntam. Devolvo com outra pergunta: existe como não fazer?

Sabe-se que a análise engloba desde o caminho para o consultório até o que o paciente irá trazer na sessão seguinte. O momento em que estamos vivendo faz com que esta análise passe por uma transição: onde antes tinham as ruas, os carros, as conduções, o elevador, a música de fundo, a porta separando o cotidiano do setting terapêutico, hoje se tem uma tela onde, com um toque, entra-se no processo psicoterápico.

Mais um luto.

A psicanálise aborda, além de todos os fatores citados, o corpo do sujeito. A constituição do sujeito. Os conteúdos manifestos e latentes, verbais e não verbais.

E, assim como nas sessões presenciais, o sujeito irá se permitir ou não entrar em análise. O tempo e espaço da análise se tornam conexões simbólicas, até porque os analistas estão atendendo da mesma forma que os analisandos: imersos e confinados, também atentos à potência de contaminação e suas diversas possibilidades. O setting se torna ainda mais simbólico, uma vez que o analisando terá que buscar um local em que se sinta confortável e acolhido, privado em sua própria casa.

É um luto mútuo, porém uma abertura para novas experiências como profissional e paciente.

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