Sobre relacionamento abusivo...



O amor é uma dimensão complexa e satisfatória. Porém, às vezes, pode ser a mais trágica que existe. Geralmente nos apaixonamos por aquilo, ou por alguém, que nos causa encantamento. É o que nos mostra Romero ao elucidar sobre as dimensões afetivas: “no que nos encanta há uma aura que nos ilumina e nos excita, provocando-nos uma agradável efervescência”. Em contrapartida, a mesma magia que nos causa encantamento oriundas da atração e do fascínio, pode também nos causar emoções provenientes do medo e do pesadelo. “Aqui o dominante é o sentimento que ameaça, de estarmos sujeitos a um perigo iminente do qual tentamos escapar ou pelo menos exorcizar, mas que não conseguimos superar nessas circunstâncias” (ROMERO, 1999).


E é essa lado negativo da magia do afeto, do amor, que prejudica quem sofre. E o relacionamento abusivo pode ser uma das faces dessa magia do absurdo e do desatino.



O que é um relacionamento abusivo?


Abusiva é aquela relação em que há a tentativa de controle e subjugação do outro através de medo, intimidação, culpa, coerção ou manipulação. É aquele relacionamento vicioso e egoísta, com presença da violência, em qualquer um dos seus desdobramentos, de maneira cotidiana e institucionalizada.


No relacionamento abusivo há um excesso de controle sobre o outro, fazendo com que a vítima se torne refém diante a ideia distorcida de cuidado. O abuso nas relações afetivas é muitas vezes silencioso, contribuindo, assim, para a subjugação do outro com diminuição de sua autoestima, reduzindo sua capacidade de reação.


E relações abusivas são mais recorrentes do que podemos imaginar. No Brasil, um estudo com uma amostra de 455 jovens universitários de São Paulo identificou uma prevalência de 21,1% de violência entre parceiros íntimos (ALDRIGHI, 2004). Em Recife, capital de Pernambuco, ao trabalharem com uma amostra significativa de adolescentes de escolas públicas e privadas, constataram que 19,9% dos adolescentes perpetraram violência física contra os seus parceiros íntimos (BARREIRA et al, 2013). Em outro estudo com jovens de escolas públicas e privadas de capitais de dez estados brasileiros, identificaram uma prevalência de vitimização e perpetração bem acima dos valores nacionais e internacionais – 86,9% como vítimas e 86,8% como perpetradores (OLIVEIRA, ASSIS, NJAINE, CARVALHAES, 2011).


Usualmente, nos comportamentos abusivos, predominam as mulheres como abusadas e os homens adquirem o papel de abusador, por meio da construção da imagem simbólica da mulher, como a de um ser humano “outro” (PINHEIRO, ÁLVARES, 2017). Porém, existem também mulheres abusadoras. Muito frequente entre casais, como vimos nos números acima, o abuso pode acontecer também em relações familiares, profissionais e em amizades.



Como identificar um relacionamento abusivo?


Fique atento! Se identificar uma das características em seu relacionamento, você pode estar vivenciando uma relação abusiva:

  • O comportamento agressivo por parte do agressor permanece, mesmo depois da vítima demonstrar incômodo, chorar ou pedir para parar.

  • Há dependência entre as partes. O manipulador coage o parceiro a viver de maneira passiva e, muitas vezes, submissa.

  • A pessoa abusiva se desculpa, mas volta a ter o comportamento agressivo.

  • São feitas acusações sem fundamento.

  • O agressor utiliza-se em demasia de linguagem vulgar e insultos.

  • São feitas ameaças de violência.

  • Podem ocorrer abusos físicos ou sexuais.

  • Tentativa de isolamento dos amigos e familiares.

  • Há manipulação, ciúmes excessivos, insegurança, posse e controle.

  • Diminuição das conquistas do abusado.

  • Atitudes de indiferença ou chantagem emocional. Dramas e insistências, além de pressão.

  • O abusador tem um tom sarcástico ou grosseiro.

  • O parceiro está mal-humorado com frequência.

  • O abusado se sente culpado com frequência.

  • O abusador tenta ter o controle financeiro do abusado ou usa o dinheiro para controlar.

  • O abusador diz frequentemente: “Eu te amo, mas…”

  • Elogios, gentilezas e presentes também podem fazer parte do ciclo do abuso. São meios para que o abusador permaneça no controle.


Para um relacionamento ser caracterizado como abusivo não necessariamente tem que apresentar uma ou mais dessas características. Quando, na relação, o agressor – seja ele homem ou mulher – se coloca em uma posição de superioridade com o intuito de desestabilizar ou desequilibrar emocionalmente o parceiro, já há ali uma relação tóxica. Seja qual for o tipo de abuso, a tentativa de controle está sempre presente. A vítima passa a viver em função do outro, perde sua identidade.



Quais as consequências que um relacionamento abusivo podem gerar?


O abuso deixa marcas profundas no indivíduo. Ele vai reduzindo a capacidade de respostas e a vítima sucumbe ao abuso, refém do medo. Há a perda da noção de realidade em que cria o sentimento de culpa pela situação.


Uma pessoa que vive um relacionamento abusivo pode desenvolver depressão, ansiedade, hábitos obsessivos compulsivos, distúrbios de sono ou alimentares, fobias, vícios (alcool, drogas, alimentação em excesso), dentre outros.


Além disso, o abuso pode manifestar-se de forma física gerando consequências graves e até mesmo a morte.


Se você está vivendo esse tipo de relação, procure ajuda. Um psicólogo ajudará a encontrar métodos seguros para deixar a relação através do autoconhecimento e consciência da situação. E lembre-se: a culpa não é sua!


Existem também grupos de apoio com participação gratuita, como o MADA – https://grupomadabrasil.com.br/.


Se você é mulher e está se sentindo ameaçada, dique 180. Denuncie!


Se ame primeiro antes de amar os outros! Isso não é egoísmo ou frieza, chama-se: consideração consigo mesmo.


E, se você acabou de sair de uma relação com características abusivas, procure a ajuda de um psicólogo. Ele te auxiliará a reencontrar o caminho do amor-próprio e da autoconfiança para superar essa experiência.


Se ame primeiro, antes de amar os outros! Isso não é egoísmo ou frieza, chama-se: consideração consigo mesmo.

Somente quando o indivíduo se compreende e aceita sua singularidade consegue lidar suas inseguranças e fragilidades para, então, vivenciar com o outro. Amor-próprio é o primeiro passo para amor o outro, autenticamente, sem cobranças, exageros, apegos e desafetos. É preciso entender que amar a si mesmo não é sinal de egoísmo, mas, sim, a consideração de que não é merecedor de qualquer coisa que o outro ofereça. Somente assim é possível realmente estar junto aos outros e criar laços desfrutando das magias do afeto.






ALDRIGHI, Tânia. Prevalência e cronicidade da violência física no namoro entre jovens universitários do Estado de São Paulo – Brasil. Psicol. teor. prat., São Paulo , v. 6, n. 1, p. 105-120, jun. 2004.

BARREIRA, Alice Kelly; LIMA, Maria Luiza Carvalho de; AVANCI, Joviana Quintes. Coocorrência de violência física e psicológica entre adolescentes namorados do recife, Brasil: prevalência e fatores associados. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro , v. 18, n. 1, p. 233-243, Jan. 2013.

OLIVEIRA, Queiti Batista Moreira et al. Violências nas relações afetivo-sexuais. In: MINAYO, Maria Cecília de Souza, ASSIS, Simone Gonçalves de, NJAINE, Kathie, orgs. Amor e violência: um paradoxo das relações de namoro e do ‘ficar’ entre jovens brasileiros. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2011, pp. 87-139

PINHEIRO, Ivonete, ÁLVARES, Maria Luzia Miranda. Mitos: pilares que sustentam o patriarcado na perspectiva de Simone de Beauvoir. Gênero na Amazônia, Belém, n. 7-12, jul./dez.,2017.

ROMERO, Emilio. As Dimensões da Vida Humana: existência e experiência. Novos Horizontes Editora, 1999.

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