Uma carta aberta sobre a depressão




Pensei muito antes de vir escrever essa carta, mas hoje depois de mais uma crise de choro. Eu tive vontade de talvez tentar explicar o que talvez muita gente não consiga compreender. Não, eu não quero romantizar um distúrbio mental, muito menos parecer fraca ou me fazer de vítima. Quero-lhe contar caro leitor como é que ter que conviver com ela. Talvez você passe por isso, talvez conheça alguém que esteja vivendo isso. Eu escrevo essa carta para que você, em algum momento da sua vida não se sinta sozinho(a).

Desde pequena eu sempre fui uma pessoa incrivelmente intensa, ansiosa e sensível. Eu vivia tendo crises de ansiedade, e lembro de uma episódio de quando eu estava na pré-escola e a professora chamou meus pais para uma conversa, pois estava preocupada, pois todos os meus desenhos eram pintados na cor preta. Isso para psicopedagogia podia significar algo como tristeza e pessoas muito fechadas.

Não consigo me lembrar de como me sentia naquela época, mas lembro dessa história como se fosse ontem. Hoje talvez eu entenda um pouco melhor que estava determinado na minha personalidade e a maneira como eu lidaria com o mundo. Eu sempre fui uma criança fechada e a verdade é que até meus 15 anos eu fui de poucos amigos e meu hobby preferido era ler, porque era uma atividade completamente solitária.

A primeira crise de depressão foi aos 13 anos, eu que sempre fui uma ótima aluna já não tinha o mesmo desempenho, eu tinha crises de choro nas aulas e não queria mais sair do meu quarto. Não entendia o que estava acontecendo, mas parecia que eu era solidão em meio a multidão, que eu era o preto e branco em meio às cores. Eu senti uma dor tão profunda, tão vazia que nada que eu pensasse aliviava. Eu tava confusa, machucada e não conseguia me abrir com ninguém. Meu mecanismo de defesa era o mau-humor.

Hoje eu tenho 21 anos e já perdi as contas de quantos dias ruins eu tive. Já ouvi muita gente dizer que é frescura, que não passa de drama. Mas do fundo do meu coração — a dor da alma é uma coisa que não desejaria nem para quem mais me feriu nessa vida. Não dá para tomar uma aspirina e esperar que ela vai passar em uma ou duas horas. É um processo longo e cansativo.

Todas às vezes que vou ao psiquiatra, ele me pergunta! Você já pensou em fazer algo ruim com você mesmo? Tenho vontade de dizer que ontem mesmo eu pensei em me jogar da sacada de casa, não estava em um bom dia, mas claramente espero nunca encontrar coragem de fazer.

Já ouvi gente dizer que isso é falta de Deus. Você se surpreenderia o quanto eu amo a Deus e acredito nele, mesmo quando eu sinto que a minha alma sangra silenciosamente e ninguém pode vê, Ele está lá mantendo a força que eu não posso vê.

Ter depressão é como lutar com você todos os dias. Sim é confuso! É um processo de aprender a se amar e também a procurar alegria nas pequenas coisas, é encontrar pequenas razões para levantar da cama todos os dias. Mas tem dias que a gente se odeia, por ser quem somos. Mas colocamos a nossa melhor roupa, nossa maquiagem e tenta se esconder. Tem dias que não conseguimos nem conversar com as pessoas, ou sorrir.

É como diz Drummond, é suportar todas as dores do mundo. Por dentro gritamos, por fora colocamos uma máscara. Com todos esses anos eu aprendi muita coisa. A única pessoa capaz de nos puxar para o fundo do poço somos nós mesmo.

Sim vão ter dias mais difíceis que outros, e vamos precisar de ajuda, e de muita compreensão. Com os anos que se passam vamos nos tornando menos frágeis aos efeitos dela. E aprendemos a lidar, aprendemos a seguir em frente e não deixar que ela domine a nossa vida, mesmo que em certos dias nós damos como vencidos(as).

Por que nessa guerra podemos até perder uma batalha, mas nunca a guerra. Aprendi a olhar para o mundo com mais empatia, porque todos sofremos, sorrimos e seguimos em frente. Aprendi a valorizar quem está lá por mim nos meus momentos mais obscuros e mesmo assim fica ao meu lado, não se importando do quão insuportável eu estou. Aprendi a ser mais perseverante quanto a mim mesmo, e as situações da vida.

Então caro leitor, se você sentir que sua alma esta se estilhaçando, ainda terá alguém para te abraçar e suportar sua dor com você. Afinal somos todos frágeis. Abrace a você mesmo, e cuide do seu corpo, da sua saúde mental, ela pode até não desaparecer, mas com certeza você vai encontrar maneiras de enfrentar a vida com mais garra. Não se preocupe, ainda é possível enxergar cor nesse mundo, e ter o coração cheio de esperança, ainda é possível acreditar na alegria e nas coisas boas que a vida nos proporciona.

- Y. M Natalia Menezes Gomes CRP 06/158371

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